Posted by on 8 de abril de 2016

Em suas edições, o VerOuvindo presta homenagem a pessoas de destaque na área da acessibilidade comunicacional no Brasil. Desta vez, a produtora de cinema Lara Pozzobon e a audiodescritora Graciela Pozzobon, responsáveis pelo festival “Assim Vivemos”, foram as escolhidas.

O “Assim Vivemos” é um Festival internacional de filmes sobre pessoas com deficiência. Foi, em 2003, na estreia deste trabalho, que o recurso da audiodescrição chegou pela primeira vez a um evento cultural no Brasil.
Lara Pozzobon também é a idealizadora do projeto “Teatro Acessível” que realiza sessões teatrais com recursos de acessibilidade.

Na entrevista abaixo, Lara nos fala sobre sua trajetória profissional e traz dados importantes relacionados aos recursos técnicos para facilitar a acessibilidade comunicacional no cinema.

Poderia nos contar como começou e se desenvolveu sua relação com a acessibilidade comunicacional?

Foi o primeiro curta-metragem que produzi, chamado “Cão Guia”, que me levou a conhecer o mais antigo festival de cinema temático sobre pessoas com deficiência, que é realizado desde 1995 em Munique, Alemanha. O curta foi escrito e dirigido por Gustavo Acioli, que também faz a seleção dos filmes do Festival Assim Vivemos comigo. O curta tem como personagem principal uma moça cega, mas o filme fala de amor, de um encontro tumultuado entre duas pessoas que se sentem atraídas uma pela outra. O filme foi selecionado para o festival de Munique, e assistimos a filmes muito impressionantes. Sentimos que aquilo era transformador, que mexia com as pessoas de uma forma ímpar.

Trouxemos a ideia do festival e o inscrevemos no edital do CCBB, que abraçou o projeto e o patrocinou desde então. Apesar de não ter visto a audiodescrição propriamente dita em Munique (lá dois atores faziam apenas a dublagem ao vivo dos filmes, sem descrição da imagem), percebemos que precisaríamos descrever tudo o que aparecia nas imagens dos filmes, nos intervalos dos diálogos, que necessariamente teríamos que dublar. Assim, intuitivamente, começamos. Para preparar o trabalho e fazer a narração ao vivo, convidei a Graciela Pozzobon, atriz que tinha feito o papel da moça cega no curta (com o qual ganhou vários prêmios de melhor atriz em diversos festivais em 1999 e 2000).

Graciela é minha irmã, eu conhecia bem o trabalho dela como atriz e a capacidade de enfrentar um desafio como esse. Foi mágico! Lembro que nós nos emocionamos muito ao presenciar, pela primeira vez, uma pessoa com deficiência visual debatendo os filmes e criticando muito um dos filmes mostrados, argumentando detalhadamente porque não tinha gostado. Detalhe: aquele era um filme polonês, chamado “Cenas da vida de um homem”, que não tinha diálogos. Então o filme era todo audiodescrito.

Paralelamente à produção do festival, que seguiu com uma frequência bienal, continuei produzindo filmes, mais três curtas e dois longas. O segundo será lançado em breve, com as três acessibilidades comunicacionais transmitidas pelo MovieReading.

Depois de alguns anos produzindo o festival, percebemos que a acessibilidade deveria estar em toda e qualquer manifestação artística, cultural e de entretenimento. Começamos a oferecer os serviços de acessibilidade em outros projetos, mas como era difícil convencer as pessoas de que isso era importante, de que a acessibilidade é um direito das pessoas com deficiência, partimos para montar nossos próprios projetos.

Montamos o primeiro portal de entretenimento com acessibilidade, o Blind Tube, onde disponibilizamos filmes brasileiros, curtas-metragens, com um player acessível onde se podia escolher “com Audiodescrição” ou “com Legendas Closed Caption”. Todo o site foi construído visando à acessibilidade também para pessoas com mobilidade reduzida, o que implica em seguir normas internacionais de acessibilidade, que permitem a navegação a todas as pessoas. O portal foi lançado publicamente na entrevista que a Graciela deu no Programa do Jô, em 2007. Ele aparece na tela no final da entrevista. No entanto, por falta de apoio de qualquer natureza, o site saiu do ar alguns anos depois.
Em seguida, oferecemos para a Prefeitura do Rio o projeto de Acessibilidade no Teatro, sugerindo começar pelo Teatro Carlos Gomes, que é municipal, por ficar localizado no centro da cidade, praticar preços populares e ter uma programação bem variada. O acordo com a Prefeitura veio com a parceria com a Petrobrás, que patrocinou o projeto durante um ano por meio da Lei Rouanet. Depois de um ano formando uma nova plateia de pessoas com deficiência visual e auditiva, cada vez maior e mais entusiasmada, a Secretaria Municipal de Cultura encampou o projeto e o renovou diretamente, sem buscar patrocínio. Isso prossegue até agora, com a estreia do projeto recentemente no Teatro Imperator, também da Prefeitura do Rio.

No Oi Futuro, tivemos uma peça de teatro infantil patrocinada pela Oi e apresentada no espaço do Flamengo, no Rio de Janeiro, e nela colocamos as acessibilidades. Isso fez com que a Oi também encampasse a acessibilidade e garantisse, durante um ano, as três acessibilidades, audiodescrição, legendas e LIBRAS, nos três teatros Oi Futuro, dois no Rio e um em Belo Horizonte, com uma frequência de uma vez por mês em cada um.

Assim, fomos progredindo e expandindo esse projeto exemplar, que rende muitos frutos não só na formação da plateia, mas também estimula outros produtores, gestores públicos e privados a contratarem os serviços de acessibilidade para seus espaços e projetos.

Em sua opinião, como está a questão da acessibilidade cultural no país?

Está crescendo bastante, em um ritmo notável. Claro que ainda é pouca oferta, poucos programas e produtos acessíveis, poucas as cidades em que eventos com acessibilidade ocorrem regularmente. Mas já há um número grande de ocorrências de acessibilidade na cultura à disposição em diversas cidades do Brasil.

Conte-nos sobre seu trabalho atual. Há novas iniciativas?

Há uma busca pela expansão do festival Assim Vivemos por outras cidades e pela distribuição dos filmes de outras formas, como DVD ou Venda Sob Demanda. Mas para isso é preciso conseguir patrocínio. Estamos sempre atentos a qualquer possibilidade.

Uma nova iniciativa aconteceu recentemente. Tive a ideia de reunir pessoas que conheci nos debates do festival Assim Vivemos para montar um espetáculo. Foi o projeto mais rápido que já tive. Entre a ideia, que surgiu em setembro do ano passado e agora, já desenhamos o projeto, todos os envolvidos aceitaram o convite com entusiasmo e já vencemos um edital da Prefeitura do Rio para projetos realizados durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. É um espetáculo de teatro musical chamado Paradinha Cerebral, que será estrelado por Cacá Fernandez e a cantora lírica Mirna Rubim. Na equipe artística, teremos ainda Daniel Gonçalves e Iuri Saraiva. A originalidade do projeto é que os talentosos Cacá Fernandez e Daniel Gonçalves têm paralisia cerebral. Isso explica o nome, Paradinha Cerebral, mas não define nem limita o tema do espetáculo, que será a vida, a arte e o amor.

Qual sua avaliação do Festival VerOuvindo?

Acho uma iniciativa muito inspirada e importantíssima nesse momento. Mostra como vivemos em vários estágios paralelos de desenvolvimento. Isso porque a competição de roteiro e narração de audiodescrição é algo muito sofisticado. O festival mostra uma maturidade própria de um estágio avançado de recepção da audiodescrição pelo público com deficiência visual. Ao mesmo tempo que em muitos lugares do Brasil nunca se ouviu falar em acessibilidade comunicacional, o VerOuvindo nos dá a oportunidade de avançar no desenvolvimento das técnicas dessa atividade com bastante consistência. O festival deve servir como referência para os iniciantes na área.

Gostaria de dizer mais alguma coisa?

Gostaria de esclarecer uma confusão que está se propagando em relação à transmissão das acessibilidades no cinema.
Há um aplicativo italiano chamado MovieReading que funciona regularmente no Brasil sem necessidade de instalação de equipamentos transmissores nas salas de cinema. Basta que se faça o download gratuito do programa e o download dos arquivos de acessibilidade, também gratuitos para os usuários, que o sistema sincroniza quando o filme estiver sendo exibido. Há outros dois sistemas sendo divulgados no Brasil, Whatscine e Dó Ré Mi, porém, estes necessitam de instalação de um transmissor no cinema, com custo significativo.

Há notícias de que outros aplicativos similares ao MovieReading estão sendo desenvolvidos por universidades e entidades privadas no Brasil, e esse é o caminho mais viável para conquistarmos um parque exibidor sem limites e com investimento pequeno. O que precisa ficar claro é que a instalação de qualquer sistema nas salas de cinema é desnecessária e representa um gasto inútil.

Entendido isso, há que se esclarecer que alguns recursos podem facilitar o acesso universal aos filmes e o conforto dos usuários e do público tradicional nas salas de cinema.

Pensando no público de cinema que não possui smartphone, seria útil disponibilizar alguns tablets para os usuários, já com o aplicativo e os arquivos de cada filme em exibição preparados para o uso. Isso representa o básico.
Pensando no público surdo, que terá de segurar na mão seu smartphone ou tablet para acompanhar as legendas ou a interpretação em LIBRAS dos filmes, transmitidas pelo MovieReading ou outro sistema similar, seria útil fornecer algum tipo de apoio para esses aparatos. Pode ser um suporte preso ao braço da poltrona ou nas costas da cadeira da frente. Esta é uma solução para o desconforto do público surdo, mas ainda não resolve outro conflito que está por vir: o da emissão de luz desses aparatos em uma sala escura, que poderá perturbar o público que não usa os recursos de acessibilidade.

Então, avançando no raciocínio, melhor que esse suporte, o ideal seria a sala de cinema adquirir e disponibilizar alguns exemplares do óculos da Epson, Moverio (ou similar que no futuro próximo aparecerá), que, ligado a um celular ou tablet, transmite as duas acessibilidades para as pessoas surdas. A grande vantagem desse aparato é que seu uso fica imperceptível, por isso, evita o desconforto da luz emitida pela transmissão dessas acessibilidades no tablet ou celular do usuário surdo.

Tudo isso é muito novo, e a divulgação da inclusão às vezes é feita sem uma explicação técnica apropriada e sem levar em conta o avanço tecnológico. No Brasil, o estado tem a lamentável tradição de fazer gastos desnecessários e desperdiçar recursos públicos por ignorância ou má-fé. Espero que a área da acessibilidade não seja mais um terreno fértil para esse tipo de equívoco. Um diálogo mais franco e continuado com os profissionais experientes da área minimizaria esse risco.

Posted in: Notícias

Comments

Be the first to comment.

Leave a Reply


You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*