“A audiodescrição é artística, parte da subjetividade do olhar”. Entrevista com a homenageada Bell Machado

Postado em 1 de novembro de 2021

“A audiodescrição é artística, parte da subjetividade do olhar”
Entrevistamos Bell Machado, pioneira da audiodescrição no Brasil e uma das homenageadas do 6º VerOuvindo

Bell Machado é uma das pioneiras da audiodescrição no Brasil. Desde o início dos anos 2000 até hoje, tem pesquisado as nuances da tradução das imagens e do olhar cinematográfico para as pessoas com deficiência visual, ao mesmo tempo em que coloca a mão na massa com a produção de audiodescrição, em que articula uma visão mais poética e ao mesmo tempo mais ligada aos conceitos do cinema. 

Para ela, é importante que o recurso não dê apenas ênfase ao conteúdo e às provocações da imagem, mas também aos meios pelos quais essa imagem existe, acontece e pode provocar quem a frui. Assim, a audiodescrição é meio também para pensar a própria imagem, e não só o contrário, e também para a expansão do próprio vocabulário imagético e cinematográfico dos espectadores com deficiência visual.

Nesta entrevista, tentamos percorrer e comemorar os vinte anos do trabalho de Machado na tradução das imagens para entender um pouco mais do que ela pensa sobre os caminhos das audiodescrição no Brasil, desafios e promessas para o futuro e a relação com produtores e diretores de cinema. Confira:

  1. Você foi uma das pioneiras da audiodescrição para o cinema no Brasil, tendo já algumas centenas de filmes em mais de 20 anos de carreira. De lá até hoje, quais foram as principais mudanças no cenário da AD no país? Quais as grandes transformações você conseguiu acompanhar de perto?

Para se falar de mudança, é fundamental partir de um parâmetro. Quando comecei a fazer audiodescrição, não havia sequer essa palavra, muito menos o conceito, e tudo, para mim, foi criação. Venho de uma formação em Filosofia e Cinema, que foram meus fios condutores para a audiodescrição. As pesquisas sobre filósofos iluministas, obcecados pelas questões do olhar, assim como o estudo das linguagens que constituem o cinema, me levaram às possibilidades das traduções do olhar, reverberando nas possibilidades das traduções das imagens em palavras.

Para mim, traduzir é abstrair. Então o que acompanho, desde 1999, é a criação da audiodescrição. Vejo pessoas que se esforçam em catequizar a audiodescrição desde o início, fazer leis intransponíveis que “desejam” seguir rigorosamente com objetividade insana. Para mim, a AD é uma criação artística, posto que parte da subjetividade do olhar.

Posto isso, acredito que não tivemos transformações. Estamos ainda, do ponto de vista conceitual, criando a audiodescrição. E tenho me certificado disso a cada dia e, mais especificamente, a partir de 2013, quando foi feito o primeiro curso de especialização em AD na Universidade Federal de Juiz de Fora, e, pouco depois, o curso de especialização da Universidade do Ceará, com a formação de audiodescritores de excelência, que se entregaram com responsabilidade e paixão e puderam estudar e pesquisar as diversas linguagens artísticas para serem audiodescritas, potencializando as aplicabilidades da AD.

Então, posso dizer que uma coisa fundamental para a Formação (e não transformação) da audiodescrição no Brasil foram esses dois cursos. Logicamente tivemos avanços nas legislações, como a Lei Brasileira de Inclusão, a partir de nossa Constituição, as diretrizes para a AD no Brasil, a ABNT-AD, a obrigatoriedade da AD na televisão, e tantas conquistas.

  1. Nesse tempo, qual a situação e o trabalho de audiodescrição mais desafiadores que você encarou?

Encarei e encaro muitos desafios, a cada dia. Esses desafios, sim, se transformam. Quando a gente pensa que alguns foram vencidos, aparecem outros… é assim é a lógica da vida, não é mesmo? Mas, certamente, um dos grandes desafios foi organizar a defesa de uma tese sobre a importância da linguagem cinematográfica ser contemplada em um roteiro de audiodescrição de cinema. Hoje, isso pode estar mais diluído, mas não era assim.

É árdua tarefa fazer as pessoas entenderem que a audiodescrição no cinema tem também o objetivo de oferecer ao espectador que não enxerga, possibilidades de debater, desenvolver noções simbólicas e argumentar sobre as formas que as imagens se constroem, pois são elas que dão sentido a um filme.

O cinema, como arte audiovisual, se comunica por meio de uma linguagem. No que se refere à linguagem visual, ou seja, à imagem, o cinema constrói sua comunicação de duas formas: pelo conteúdo da imagem e pela forma pela qual captamos este conteúdo. O conteúdo é responsável pelo sentido lógico. A forma de registro são os planos e movimentos da câmera. Se a imagem no cinema constrói sua comunicação pela forma e conteúdo, a audiodescrição no cinema também deve seguir os pressupostos da linguagem da arte a que se propõe descrever, ou seja, uma audiodescrição que não se restrinja a descrever somente o conteúdo das imagens, mas que se estenda à maneira pela qual elas são registradas, sua linguagem.

Uma pessoa que nasce vendo e escutando cresce, por assim dizer, alfabetizada por códigos visuais e sonoros estabelecidos pelos sentidos e pelos ambientes socioculturais. A pessoa que nasce cega, por sua vez, não tem acesso aos códigos visuais de comunicação. Ela recebe, dos que veem, as descrições das coisas do mundo. Desse modo, esse espectador no cinema só poderá imaginar as imagens e os detalhes dos movimentos se conseguir se projetar ali.

Será a audiodescrição cuidadosa, com os elementos da linguagem da câmera, a proximidade, o ângulo, que dará a sensação, o prazer ou o incômodo, seja de um tombo, de um rosto sorrindo, do seio de uma mulher ou de duas pessoas fazendo amor. O audiodescritor terá que, a partir da pluralidade do olhar, dar conta dessa tradução visual. Buscamos a objetividade da imagem enquanto ela busca, em nós, a subjetividade. Eis a parte invisível do olhar: aquela que está na mente de cada um.

  1. O Brasil tem alguma particularidade poética no campo da AD que o diferencia das práticas em outros países? Como nosso país se situa atualmente no campo da AD? Como ele dialoga com a experiência de outros países?

Eu penso que, quanto aos diversos tipos de audiodescrição no Brasil, não dá ainda para gente, embora tentem fazer isso, estabelecer uma vertente, como as pessoas têm rotulado. Eu acho que há estilos diversos, mas não chamaria ainda de vertentes como as que existem na história da pintura, nos grandes movimentos artísticos, da música, da literatura. Como eu disse acima, acho que a audiodescrição ainda está se formando. Então, não há ainda “transformação” a meu ver logicamente.

No que tange à questão da audiodescrição poética, se bem que há vários entendimentos sobre isso, ao meu ver, como venho da Filosofia, para mim, está intrínseco que, quando olhamos uma imagem, nós a vemos como algo imediatamente. Com isso, eu quero dizer que a pluralidade do olhar está intrínseca em qualquer observação, qualquer percepção. Portanto, num certo sentido, uma tradução pode ser clara e objetiva até a página 2 [risos], porque tudo o que vem do olhar é subjetivo.

Tentamos descrever as imagens de uma forma clara e objetiva certamente, sem juízos de valor, mas ela já vem contaminada pelo histórico daquele olhar do audiodescritor e, quando a gente quer, dependendo da linguagem artística, como nas obras pictóricas, ou esculturas, ou outras linguagens da pintura ou mesmo no teatro, no cinema, querendo ou não, nós estamos colocando ali nossa forma de percepção, o que eu reparei da imagem. Mesmo sendo objetivo, eu estou fazendo uma tradução que inclui abstração e até outros fatores. Quando eu quero fazer algo mais poético, isso não significa que eu não estou querendo ser objetiva, isso é um equívoco. É simplesmente um outro viés de comunicação mais poético, talvez mais lírico.

Então, nesse sentido, não conheço todas as audiodescrições do mundo, então não posso dizer se o Brasil é mais poético ou não, até porque dentro do Brasil existem várias formas de se fazer, outras mais objetivas, do que se pode chamar “poéticas”, outras mais desprendidas das normas, das diretrizes da ABNT. Mas acho que conheço bastante coisa que está indo, nos últimos anos, para o lado poético. “Esses últimos anos”, eu me refiro aos últimos seis, sete anos. Como venho da filosofia, para mim, é mais do que natural encontrar a poeticidade das imagens e a poeticidade das palavras. Então, meu trabalho é carregado de poesia natural porque as palavras nos trazem imagens e as imagens nos levam a outras palavras. Portanto, para mim, uma audiodescrição poética é mais do que natural.

  1. Como é a aceitação e a integração de diretores e diretoras, produtores e produtoras em tornar suas produções acessíveis? Há mais aceitação ou ainda um certo receio com a prática da acessibilidade comunicacional?

Eu acho que, hoje em dia, a aceitação e a integração entre diretores, produtores e a gente que faz acessibilidade é bem maior do que era 15 anos atrás. Antigamente, como não havia verbas, como elas não estavam garantidas nos editais, a gente sempre dependia das pessoas que já trabalhavam com acessibilidade para que se pudesse destinar uma pequena verba para esse trabalho. Mais tarde com LBI, com a inclusão das porcentagens nos editais de fomento à cultura e com o próprio avanço da audiodescrição da televisão, a acessibilidade deixou de ser uma coisa tão longe. Eu tenho a impressão de que hoje é muito mais fácil porque você não só tem as leis, mas você tem os produtos sendo divulgados. Então os produtores culturais, embora as verbas para eles sejam bem restritas ainda, têm tido experiências com acessibilidade.

Eu acho que é essa é a grande questão. Quando eu vou conversar com algum produtor de cinema, de teatro, de museus, eu mostro os produtos com acessibilidade. Então, o que eu faço com isso? Eu dou oportunidade dele experimentar de se colocar no lugar do outro, experimentar ter essa experiência de fechar os olhos e de ouvir ou, na questão da Libras, de não ouvir, só olhar aquelas imagens do audiovisual. Acho que o grande lance é estarmos num diálogo constante de alteridade: essa é a grande chave. 

Não adianta sair gritando que não tem empatia, porque empatia é algo tão relativo! Como você vai ter empatia por algo se você não teve oportunidade de compartilhar com a diversidade? Não existiam políticas públicas que permitissem o convívio da gente com as pessoas com deficiência. Então, quando isso começa a acontecer, flui de uma forma mais natural. Hoje, meu diálogo com as pessoas que produzem audiovisual e também outras linguagens artísticas é um bom diálogo. Muito longe do que teria que ser, mas perto do que era, acho que estamos avançando.

  1. Quais os principais pontos atuais da pesquisa em audiodescrição? Qual o papel das universidades, dos centros de ensino e pesquisa e dos espaços de formação para a consolidação da produção de AD?

Quando a gente pensa nas pesquisas que estão sendo feitas na área da acessibilidade e da audiodescrição, elas vão em diversas direções. Tenho visto colegas estudarem e defenderem dissertações de mestrado e teses de doutorado nas mais diversas modalidades. A universidade tem um papel fundamental para que se possa dar um respaldo para essas pesquisas acontecerem com bolsas de estudo e também para proporcionar os cursos de especialização em audiodescrição. Infelizmente, temos tido muito pouca verba e investimento na formação por parte das universidades públicas. Esse é realmente um entrave.

Mas posso dizer, por mim, que, sem a universidade, eu não teria organizado minha dissertação de mestrado que vai dentro da pesquisa da audiodescrição no cinema. Como já sou da área da Filosofia, poder investigar nos filósofos iluministas todas as questões da Teoria do Olhar e como se dão esse olhar e a tradução desse olhar foi fundamental para pensar uma audiodescrição de qualidade no cinema. Também foi dentro da universidade que eu pude ministrar cursos de audiodescrição para as pessoas com deficiência visual para que se tornassem consultores de roteiro. Isso faz toda diferença: um audiodescritor roteirista vidente ou corroteirista com deficiência visual, assim como um audiodescritor consultor que conheça a linguagem cinematográfica e como se dão esses registros de forma e conteúdo, podem, com certeza, construir um roteiro de AD com mais excelência.

Quando a gente conhece a história do cinema, a gente entende que existem diversas vertentes cronológicas, existem escolas cinematográficas, e, quando você conhece as características de cada uma delas, você entende que não se pode fazer audiodescrição de um filme do expressionismo alemão, por exemplo, que prima pelas nuances do claro e escuro, que começou com a questão do terror, do medo no cinema, como se você tivesse fazendo de um filme da Sessão da Tarde. Também o contrário é verdade (risos). Não preciso fazer uma AD de um filme comercial com a mesma observância da linguagem cinematográfica. A mesma coisa acontece no construtivismo russo, que tem as articulações de planos, os movimentos de câmera que dão o sentido do filme, o cinema conceitual. Menos ainda com o neorrealismo italiano, que trabalha com tempo real das estruturas das narrativas, ou o realismo poético francês. Enfim, cada escola e, dentro de cada escola, cada diretor, tem um arsenal de linguagem riquíssimo, que, se você não conhece, você não dá conta de fazer essa tradução para formar um repertório visual / imagético e muito menos simbólico para a pessoa com deficiência visual.

No caso do cinema brasileiro, então, é mais importante. É um grande equívoco achar que existe “o” cinema brasileiro. Que cinema brasileiro é esse? Peraí: de qual cinema está falando? De qual época? De que diretor? Não existe “um” cinema brasileiro! É um equívoco achar que o cinema brasileiro é parado ou verborrágico, ou tem som ruim, ou não tem técnica, ou é cine cabeça. A cultura cinematográfica brasileira é muito mais ampla do que isso, ela é riquíssima. Então, a gente tem muitos cinemas brasileiros e quando você não tem a oportunidade de estudar e conhecer, quando você não tem acesso a bons cursos de Formação em audiodescrição, você acaba des-conhecendo e, portanto, se tornando in-capaz de traduzir sua própria cultura — o que é mais triste. A universidade faz toda diferença. Espero que a gente tenha, no próximo ano, um governo mais responsável com a cultura e, consequentemente, com as formas de acesso à cultura, que se revela na acessibilidade.

  1. Quais as atuais dificuldades no campo? É possível indicar alguns pontos de reflexão sobre o futuro da AD no Brasil e no mundo?

Creio que um dos grandes entraves para acessibilidade, para audiodescrição no cinema – vamos nos ater ao cinema — aqui no Brasil, é o mercado da exibição. Sempre foi. E me refiro à exibição do cinema nacional, porque é ele que retrata nossa cultura e nos dá possibilidades de termos, ou não, a sensação de pertencimento.

Desde a época dos estúdios da Vera Cruz, os grandes produtores já falavam que o problema do Brasil era exibição. Não há uma lei que garanta que aquela produção feita será exibida por um tempo razoável nas salas de cinema. Sendo assim, no que tange à acessibilidade, o problema se estende, por ressonância, na questão da obrigatoriedade dos equipamentos de audiodescrição nas salas de cinema.

Essa é uma questão que o governo tem protelado. É inadmissível que tenhamos uma Constituição, que garante o direito de acesso à informação e à cultura) e efetivamente, não serve a nada. Dependemos sempre de poucas gestões isoladas, conscientes e responsáveis, mas que não são suficientes. Mas elas existem, graças a Deus!

No momento em que o estado não garante os direitos dos cidadãos, fica bem difícil a gente trabalhar uma perspectiva positiva. Ou seja, como fica a questão de direitos e deveres? Temos que pagar nossos impostos, cumprir com nossos deveres, mas nossos direitos não estão garantidos? De acordo com o filósofo Hegel, “direitos e deveres caminham juntos”. E essa questão se estende para todas as esferas, inclusive nas relações entre professores e alunos nos cursos de formação em audiodescrição. Questão grave que retomarei em momento oportuno.

Então, creio que o entrave é esse: temos que nos mobilizar para que as políticas públicas cumpram com seus deveres e garantam os direitos das pessoas com deficiência visual: o acesso ao audiovisual de maneira digna.

Por fim, há outra questão grave, de produções de audiodescrição dos filmes, que ficam arquivadas na Cinemateca Brasileira, sem serem exibidas nos cinemas, pois não há equipamento de AD em todas as salas, nem nas TV’s abertas ou fechadas, pois não há fiscalização para que as emissoras reproduzam os filmes com acessibilidade.

Paira então a idiossincrasia: as políticas públicas que, por um lado, garantem os direitos de acessibilidade para as obras audiovisuais, nos editais de fomento à cultura, por outro lado, desperdiçam o dinheiro público, não fiscalizando a utilização desse recurso para seu público-alvo. É uma vergonha!

E numa tentativa de falar de um possível futuro para a audiodescrição no Brasil, eu diria que ainda tenho dentro de mim um grande otimismo! Fruto das relações maravilhosas que tenho vivido dentro da audiodescrição, dos trabalhos de excelência que tenho presenciado e da potência de meus alunos! Obrigada a todos vocês, que fazem desta luta, uma luta de todos!

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