Curadoria

Amanda Mansur

É professora do Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Possui Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e Pós-doutorado na University of Reading, no Reino Unido. Ministra disciplinas, oficinas e minicursos sobre teoria e prática do audiovisual, além de atuar na área como produtora, continuísta e curadora. É coordenadora do Laboratório de Imagem e Som do Agreste (LAISA). É autora dos livros, O Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco, UFPE (2010), A Brodagem no Cinema em Pernambuco, Editora Massangana (2019) e organizadora, juntamente com o professor Paulo Cunha, do livro A Aventura do Baile Perfumado: 20 Anos Depois (2016), lançado pela Editora CEPE. Atualmente ocupa o cargo de Secretária Adjunta, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, regional Pernambuco.

 


 

MOSTRA CURTAS PERNAMBUCANOS

A mostra de filmes de curta-metragem pernambucanos traz três obras com temáticas e abordagens distintas. O premiado curta-metragem Inabitável (2020), dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, conta a história de Marilene, em busca da sua filha Roberta, uma mulher trans que desaparece depois de uma festa. O filme retrata a dura realidade brasileira, vivida por sua população desde antes da pandemia, e acende o debate sobre o machismo, o racismo e o preconceito.

Já o documentário Mini Miss (2018), dirigido por Rachel Daisy Ellis, acompanha cinco meninas, entre 3 e 5 anos de idade, que participam do concurso de beleza Mini Miss Baby Brasil. A narrativa é contada pela perspectiva de uma menina de 4 anos, e traz uma visão sobre a primeira infância e sobre a resistência das crianças nesse universo dominado pelos desejos e pelas regras dos adultos.

No curta O menino que morava no som (2019), o diretor Felipe Soares conta a história de Timba, menino pobre, surdo e periférico, que precisa lidar com as dificuldades de comunicação. A experiência do personagem, seus desejos e suas frustrações são compartilhados com o espectador pela concepção visual e sonora da obra. O filme aborda a temática da dificuldade que algumas crianças surdas da periferia do Brasil têm pela ausência do contato com a Libras, não somente por causa de questões sociais, mas também por causa da falta de aceitação da surdez, em certas famílias.

 

SESSÃO MEMÓRIA

“O Rap é um filme que não pode estar engavetado, por mais que seja de vinte anos atrás, é um filme muito atual. É muito atemporal. Estou aqui, ainda contrariando as estatísticas, contando um pouco da minha história e espero contar por muito tempo ainda, por onde eu passar. As gerações que estão por vir tem que saber o que acontecia e o que ainda acontece ao nosso redor, nas periferias das grandes cidades brasileiras. E a acessibilidade é um ato de cidadania, de solidariedade, de amor.” Essas foram as palavras de Garnizé, o protagonista do longa-metragem de documentário, O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas (2000), dirigido por Paulo Caldas e Marcelo Luna, ao saber da seleção do filme para a Sessão Memória, do Festival VerOuvindo de 2021.

Passado-presente, centro-periferia, tradição modernidade, tudo se mistura, quando na década de 1990 a produção cinematográfica no Recife é retomada. Os cineastas Paulo Caldas e Marcelo Luna, preocupados com a renovação da dramaturgia, utilizam o espaço da cidade como cenário do filme. O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas tematiza a violência urbana na Região Metropolitana do Recife, o espaço onde a narrativa se desenvolve. O filme entra no cotidiano da periferia da cidade, para contar a história real do músico Garnizé e do justiceiro Helinho.

Atravessamos a cidade a bordo dos skates, ônibus, carros e aéreas. Os movimentos travellings do ponto de vista dos veículos identificam locais representativos da cidade – Avenida Conde da Boa Vista, Avenida Guararapes, Alto José do Pinho, o bairro de Casa Amarela. Uma cidade multifacetada, híbrida, diversa na sua própria cultura, que está imersa em outras diversas culturas. A metrópole periférica é dotada de uma diversidade arquitetônica e estrutural, e de seus interiores marginais, onde a violência sufoca e confina a população local.

Assim como Garnizé, a cidade e o cinema seguem contando suas histórias. O Festival VerOuvindo torna O Rap acessível e ativa essas memórias. É importante conhecer o passado para entender o lugar que ocupamos no mundo. E, mais importante ainda, é democratizar as memórias que se constituíram audiovisuais.

 

SESSÃO PARA JUVENTUDE – SESSÃO ALUMIAR

O fechamento da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes, ligada ao Ministério da Cultura, distribuidora e co-produtora de filmes brasileiros, criada em 1969), e de todos os órgãos governamentais de ajuda à produção e distribuição, reduziu a produção cinematográfica no Brasil a quase nada, no início da década de 90. Em 1993, com a criação da Lei do Audiovisual e de outras leis de incentivo, o cinema brasileiro renasce com uma produção que chama atenção e surge ao mesmo tempo em várias regiões com características próprias, com temáticas, sotaques, estilos e propostas estéticas diferentes. Segundo a pesquisadora Lúcia Nagib, em três edições, promovidas entre 1993 e 1994, o prêmio Resgate do Cinema Brasileiro contemplou 90 projetos, produzindo um boom na produção nacional.

Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil, dirigido por Carla Camurati, foi lançado em 1995 e é considerado o filme marco da retomada da produção cinematográfica brasileira. O filme traça um painel da vida de Carlota Joaquina, espanhola de nascimento que aos dez anos foi prometida em casamento a Dom João VI, príncipe de Portugal. Carlota, decepcionada com o casamento, ficou conhecida por suas aventuras adúlteras. A obra recria de maneira satírica a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, faz referências ao período de transição da colônia ao império e aborda a questão da miscigenação do povo brasileiro e dos conflitos da família real no comando da Corte. O filme foi um sucesso de público, sendo visto por mais de 1 milhão de espectadores.

 

MOSTRA DE CURTAS PERNAMBUCANOS – LAB

A edição de 2021 traz uma novidade: filmes produzidos durante a pandemia da Covid-19 e realizados com recursos da Lei Aldir Blanc Pernambuco. Os três filmes de curta-metragem selecionados para esta mostra apontam para diferentes paisagens do estado e também para vidas impactadas pela pandemia.

Cabocolino (2021) é o primeiro curta de documentário do diretor João Marcelo. O filme acompanha a saga do brincante João de Cordeira, um artista que luta para manter viva a tradição do Bloco de Caboclinhos, do Sítio Melancia, da cidade de João Alfredo, Agreste Pernambucano. Seu João, 78 anos, além de artista popular é agricultor aposentado, e tinha o sonho de prestar uma homenagem ao seu avô na cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará. O filme mostra a viagem do artista popular, da escolha da semente no pé de tambor ao encontro com o solo de seu antepassado.

Nessa jornada, partimos de volta para o Agreste Meridional, mais precisamente para a Aldeia Fulni-ô, no município de Águas Belas. O filme de documentário Ethxô Nandudya (2021) é uma direção coletiva de Fernando Matos, Narriman Kauane, Raryson Freitas, Tayho Fulni-ô, Thales Matos. A obra traz o impacto que o surgimento do coronavírus trouxe para a convivência social na aldeia. O povo Fulni-ô vinha acompanhando as notícias sobre a pandemia através da televisão e da internet, mas acreditava que era impossível que o vírus chegasse ao Brasil. Quando a população indígena começou a ser infectada, eles tiveram que criar novas estratégias de convívio, na tentativa de seguir as orientações da Organização Mundial de Saúde.

No filme O Rio, um itinerário poético (2021), dirigido por Adelina Pontual, o tempo e o espaço são dilatados nas memórias de um rio e dos lugares que ele percorre. O curta é inspirado no poema O Rio, de João Cabral de Melo Neto, e traz um livre percurso poético de imagens e sons que simbolizam a trajetória do rio Capibaribe, desde sua nascente até seu desaguar no oceano, no Recife. O filme conta com a poesia de Bell Puã e com a produção de Chica Mendonça – Chá Cinematográfico.