> SESSÃO CURTAS PERNAMBUCANOS
Coleção, André Pinto e Henrique Spencer | Nova Iorque, Leo Tabosa | Cor de Pele, Lívia Perini
> 23/04, 9h30, Vitória – Teatro Silogeu Professor José Aragão
> 23/04, 14h30, Jaboatão – Cine Teatro Samuel Campelo
> 28/04, 16h, Recife – Cinema da Fundação/Museu
Com audiodescrição, Libras e LSE

> COLEÇÃO
André Pinto e Henrique Spencer, Ficção, 13 min, 2018, DCP, 10 anos, Plano 9
Sinopse: Júlio descobre que uma das fotos de sua coleção guarda algo mais do que um mero registro de momentos do passado.
Acessibilidade Comunicacional | Audiodescrição – Roteiro: Liliana Tavares; Consultoria: Manuel Negraes; Narração: Liliana Tavares; Libras – Tradução e interpretação: Carlos Di Oliveira; Consultoria: Mirella Cavalcanti; LSE – Legendista: Eliana Franco; Consultoria: Marcelo Pedrosa

Coleção

Talvez uma das habilidades mais complexas da linguagem cinematográfica seja mesmo a de gerar tensão e suspense. Pois em ambos o ritmo das ações pedem precisão. E assim acontece com o curta-metragem “Coleção” de André Pinto e Henrique Spencer. Inserido dentro de um contexto narrativo maior, a série para TV “Fantásticos”, o curta tem em si uma estória e uma construção muito própria. Onde o fantasmagórico e a alucinação criam ambiguidades bem interessantes. Apostam na linearidade narrativa como forma de diálogo direto com o público e para isso se valem do uso rigoroso da linguagem clássica cinematográfica. E eis aí seu imenso mérito, faz isso muito bem. Em meio a um ambiente em que autores buscam evidenciar seus trabalhos por meio do hermetismo, muitas vezes esvaziados de sentido, André Pinto e Henrique Spencer apostam no caminho inverso: a linearidade e a clareza são suas marcas narrativas. E mesmo assim não deixam de ser ricas em simbolismos e leituras.

Coleção é um ótimo exemplo de como podemos e devemos cada vez mais nos apropriarmos de elementos universais da narrativa, aliá-los a construção da linguagem clássica, tão utilizada no cinema americano e mesmo assim imprimir uma marca e uma identidade só nossa. É um convite a reflexão aos que têm ressalvas e pré-conceitos ao dito cinema de género, a rever posições e olhares. Pois é construído com extremo bom gosto e domínio técnico. Uma estória que nos prende nela por sua fluência narrativa e sua precisão em gerar suspense e medo. Sem deixar de ser uma sutil reflexão sobre nossa relação com a memória.

Em um tempo em que muitos apostam na sucessão de espantos, muitas vezes mal construídos, como meio de prender a atenção do espectador, Coleção nos entrega um suspense, meio terror, meio ficção científica, que aposta na construção gradual e rítmica das ações e seus desdobramentos. Com uma elegância fotográfica e uma montagem primorosa, é cinema ao melhor estilo hitchcockiano, sem precisar se estender por horas, guardando aquilo que é a marca indelével do curta: concisão.

> NOVA IORQUE
Leo Tabosa, Ficção, 24 minutos, 2018, DCP, 10 anos, Pontilhado Cinematográfico
Sinopse: Hermila e Leandro querem fugir. Hermila e Leandro querem ficar.
Acessibilidade Comunicacional | Audiodescrição – Roteiro: Andreza Nóbrega e Danielle França; Consultoria: Milton Carvalho; Narração: Danielle França; Libras – Tradução e interpretação: Jaqueline Martins; Consultoria: Allyson Silva; LSE – Legendista: Flávia Machado; Consultoria: Marcelo Pedrosa

02 Foto Nova Iorque - Still Alex Costa

O caminho narrativo das subjetividades não é fácil. Tende-se a perder a mão, a se tornar hermético demais, introspectivo demais, entrando quase sempre por um monólogo do autor para consigo mesmo onde o público frequentemente fica de fora. A essas tentações o diretor Leo Tabosa evita sutilmente, andando no delicado fio da navalha, em Nova Iorque e nos entrega um trabalho primoroso sobre a solidão da infância num quase memorial que estabelece pontes, avenidas, entre o filme e a platéia. E constrói sua narrativa como se bordasse uma tapeçaria, onde se por um lado visível estão as belas imagens, por trás dos personagens antevemos um mundo despedaçado, desolado e ainda em formação. Esse contraste entre a paisagem e seus habitantes fica evidente o tempo todo, é insistente, sempre volta. E em cada volta que dá vemos o quanto de desconforto causa a cada figura ali retratadas.

O contraste entre o exterior e o interior de cada um é forte na diferença entre os ritmos internos do menino e no ritmo do meio que o cerca. Meio esse que busca sempre silencia-lo, contê-lo, ao qual ele resiste. Mas, Leo não é óbvio em seu caminho e pela escolha da linguagem direta. Por vezes busca nos conter também, a nós espectadores, com as escolhas que faz. Principalmente quando aposta num olhar quase contemplativo da fotografia do filme. A própria escolha técnica em filmar num formato de janela que não se usa mais no cinema para contar sua história já deixa claro que irá falar de passado, de memória, e principalmente de esquecimento.

Somos imersos num mundo de pessoas esquecidas da civilização, pessoas que também se entregaram a esse esquecimento, a essa ausência. Esquecimento esse que um garoto e sua pulsão de vida se negam a seguir, causando a perturbação necessária ao meio -família, professora, lugar. O universo dos sentidos, no qual habita o menino, acaba sendo o lugar de alento para o espectador, onde o brinquedo e o imaginário fazem uma reinvenção do mundo ao qual o filme retrata. Tudo isso de maneira direta mas também intuitiva, subjetiva, sensível. Nova Iorque é um desses raros filmes que conseguem narrar de forma sensorial sem perder-se no hermetismo estilístico. É filme que fala de gente e diretamente pra gente.

> COR DE PELE
Lívia Perini, Documentário, 15 minutos, 2018, DCP, Livre, Inquieta
Sinopse: Cor de Pele é um documentário sensível sobre a vida de Kauan, um menino albino de 11 anos. Nascido com pais negros, Kauan descreve de forma lúdica e espontânea a rotina do dia-a-dia com sua família atípica, pois ele tem cinco irmãos: dois albinos e três negros. Mesmo com todas as limitações de sua condição, ele quebra barreiras e se insere na abundante cultura negra local de sua cidade natal.
Acessibilidade Comunicacional | Audiodescrição – Roteiro: Túlio Rodrigues; Consultoria: Michell Platini; Narração: Liliana Tavares; Libras – Tradução e interpretação: Efraim Canuto; Connsultoria: Alesandro Vasconcelos; LSE – Legendista: Flávia Machado; Consultoria: Marcelo Pedrosa

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Em Cor de Pele, Lívia Perini consegue acertar em cheio na maneira de abordar seu personagem e é a partir dele que adentramos num tema espinhoso e complexo como o racismo. Que Lívia e seu personagem nos apresentam com extrema leveza. Cor de Pele é uma dessas narrativas gigantes que passam e tocam nosso tato como se fosse um leve e ligeira brisa. O que, dado a linguagem documental, poderia nos ser entregue como algo duro e seco, na verdade nos chega quase como se fosse uma alegoria poética. De forma muito habilidosa Lívia nos seduz já nas primeiras imagens e assim feito uma habilidosa “contista” já nas primeiras linhas nos diz: “Esse é o universo. Ponto. Vem ou não?” E fica quase irresistível não ir pois seu personagem não nos deixa brecha para dúvidas. E assim, conduzidos por Cauan, um garoto morador da periferia e por suas duas irmãs, Rute e Estefani, adentramos o universo das pessoas albinas e suas rotinas e desafios em um mundo que ainda insiste em ser dividido, assim como já entrega o título, pela cor da pele. 

Racismo e preconceito rondam o tempo inteiro a narrativa, porém nunca ganham o protagonismo dela, que se reserva inteiramente a se entregar ao mágico mundo da mente e do olhar de Cauan sobre o mundo. A complexidade e grandeza do universo infantil é trazida sem filtros, em sua inteireza lúdica e às vezes cruel. Pontuado por um ritmo preciso e um andamento primoroso, Lívia em sua estreia nos entrega um mundo cheio de beleza e esperança, mas não ingênuo. Não mesmo.

Textos de Jeorge Pereira
Curador do V VerOuvindo

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>> ESTREIA
AutoFalo, Caio Dornelas
Ficção | 21’| 2019 | 9 oitavos | 12 anos
Dia 27/04, 15h, Cinema da Fundação/Museu
Com audiodescrição, Libras e LSE

Acessibilidade Comunicacional | Audiodescrição – Roteiro e Narração: Liliana Tavares; Consultoria: Felipe Monteiro; Libras – Tradução e interpretação: Efraim Canuto; Consultoria: Alessandro Vasconcelos; Legendista: Eliana Franco; Consultoria: Marcelo Pedrosa

CATÁLOGO

Sinopse: Todas as manhãs Nivaldo lava o seu carro, fecha os olhos e goza.

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