“O corpo de quem traduz não é legenda, mas vida que pulsa!”. Entrevista com o homenageado Jonatas Medeiros

Postado há 3 semanas

“O corpo de quem traduz não é legenda, mas vida que pulsa!”
O VerOuvindo conversou com o intérprete tradutor de Libras e um dos homenageados da sexta edição Jonatas Medeiros, que tem feito um amplo trabalho de valorização do papel do tradutor no audiovisual, da expansão da Libras nos produtos culturais e pela maior participação do público surdo nas definições técnicas, poéticas e políticas da acessibilidade.

Confira abaixo o bate papo, que falou desde o uso de figurinos no processo tradutório, o aumento da presença dos intérpretes nas produções da pandemia, o futuro da janela de Libras no audiovisual e as demandas técnicas nos espaços formativos.

  1. Qual sua opinião sobre o uso de figurinos para intérpretes de Libras nas produções tanto profissionais quanto caseiras? Quais os cuidados e os limites para que o recurso seja proveitoso para o público surdo, mas sem incorrer em prejuízo à fruição?

Há uma imagem do/a intérprete como sujeito que precisa ser o menos visível possível e que esta atuação deve ser discreta. Discordo desse lugar, não porque defendo que intérpretes devem se sobressair à obra em suas atuações, mas por entender que este corpo que se insere na obra é performático e extremamente visível, independente da indumentária utilizada. Na língua de sinais, o corpo de quem traduz não é uma legenda, não é letra morta, mas vida que pulsa, aparece e se imprime na obra.

O cinema, assim como o teatro, possuem como ferramenta a performance (seja na narrativa das atrizes e atores, na iluminação, nos enquadramentos ou movimentos de câmera), tudo em prol de uma narrativa que sempre será performática. A tradução dialoga com diferentes elementos de uma obra artística; os diferentes personagens, enquadramentos e fotografias não são dispensados do olhar de quem traduz. Na língua de sinais, há diferentes gêneros textuais sinalizados e esses requerem linguagens, posturas e indumentárias diferentes. Me parece sempre reducionista a ideia de que a mesma forma de se traduzir uma propaganda política seja a de se traduzir um comercial de TV ou um trabalho cinematográfico. Porém, as rupturas com estéticas estabelecidas são um processo longo de mudança cultural e de mercado.

Quanto aos cuidados e limites, recai na análise do que contribui para a narrativa, porém não há uma receita pronta e um critério muito bem definido. Cada obra e seus recursos irão dar a margem dessas possibilidades. O figurino pelo figurino não faz sentido se não fizer parte de um projeto tradutório que amarre essas escolhas indumentárias e a façam ter sentido na narrativa. Aí entra o trabalho em equipe, a decupagem das personagens traduzidas e seus respectivos figurinos, os cortes na tradução entre uma personagem e outra, o número de tradutoras/es envolvidas/os, a disposição dessas/es na imagem etc.

O que vale é a fruição. De nada vale uma super produção se, visualmente, o resultado tradutório não se comunica. Porém, gosto da defesa de reconhecer que diferentes gêneros e formatos solicitam outros recursos de quem produz a tradução. É entender o traduzir a arte como parte de um processo que é também artístico, cheio de camadas complexas que diferenciam diferentes gêneros e materiais.

  1. Com a pandemia, e o uso e produção de mais materiais audiovisuais na rede, a presença da janela de Libras se tornou mais comum e mais ampla para a população surda. Você acredita que essa presença deve continuar e/ou consolidar mais a presença da janela de Libras nos produtos audiovisuais?

Impossível negar que houve um pequeno, mas significativo “boom” da tradução em Libras nos materiais audiovisuais e em lives, por exemplo. O fato de artistas como Marília Mendonça endossarem a presença de intérpretes de Libras, permitiu aproximação maior do público surdo a esses diferentes conteúdos, assim como ampliou o olhar das pessoas ouvintes para a Libras, aguçando o imaginário social sobre essa língua e as/os profissionais que trabalham com ela. Todos ficaram regozijados com a intérprete Gessilma sinalizando “apaixonadinha”, “roubando a cena” e ganhando destaque em diversos jornais e portais devido a sua performance tão encantadora.

Hoje a língua de sinais é mais presente em propagandas públicas vinculadas a TVs abertas e em canais públicos, porém ainda é um crescimento tímido, já que esse “boom” é simbólico em um deserto tão vazio, possivelmente o avanço não represente nem 2% do que se veicula hoje nas mídias. Além disso, temos um problema de distribuição de materiais com tradução em Libras.

No caso de filmes registrados na Ancine, há um evidente desinteresse em fazer circular conteúdos com tradução em Libras e outras linguagens de acesso como a tradução em audiodescrição. O mercado não absorve, não distribui e as políticas não tencionam a exibição desses materiais. Se, por um lado, há um aceleração da produção de tradução em Libras no audiovisual por força de lei, há, por outro, uma inibição da aproximação da comunidade surda e seu acesso ao audiovisual por uma política de “silenciamento” e “esquecimento” desses materiais traduzidos.

É desejável a continuação desse aumento, ampliação e permanência dos serviços de tradução e interpretação em materiais audiovisuais, porém há dois fatores que acredito serem importantes. O primeiro é a quebra da “máscara benevolente” que se deposita na Libras, sua colonização estética, fotográfica e espacial. Não basta colocar a língua em um espaço sem permitir que ela seja atrativa qualitativamente, produzida em diálogo com a comunidade surda e sendo pensada na sua complexidade durante toda a produção  daquele material audiovisual. “Coloca a janelinha e resolve isso logo” é o que já me disseram, no diminutivo, para demarcar não apenas um espaço de inserção, mas principalmente de importância para produtores/as e diretores/as.

O segundo ponto é a compreensão histórica de que há uma população que nunca teve acesso a esses conteúdos e que portanto estão no que chamamos de “formação de público”, o que implica um processo de aproximação, letramento nas diferentes mídias e hábito ao acesso dessas através da língua de sinais. Isso requer aproximação, diálogo, inventividade e, principalmente, desejo de ter a comunidade surda como telespectadora, sujeitos pensantes e críticos de obras audiovisuais. Porém, a desumanização das pessoas surdas na história, respinga nessa “janelinha” que, de preferência, deve ficar guardada em um arquivo bem morto.

Por fim, gostaria de comentar que as comunidades surdas atuais possuem uma característica cibercultural, onde a relação com plataformas digitais e redes sociais tornam-se espaços de trocas não-compartilhadas em outras gerações surdas que não possuíam tecnologias de contato em língua de sinais fora da presencialidade. Essa questão é primordial para reconhecermos as próprias produções surdas, suas estéticas em diferentes gêneros sinalizados e seus interesses. Creio que aí residem aspectos interessantes para se pensar projetos de traduções audiovisuais em diferentes formatos em diálogo com aquilo que as comunidades surdas já nos revelam como possibilidades. Falar a língua deles, mas também suas estéticas, culturas e desejos.

  1. Pela experiência, como você vê o uso da Libras no audiovisual no futuro, em cerca de dez anos? Tanto no cinema, como também na TV e nos serviços de streaming? Você acha que a inclusão pode vir a ser maior?

Quando comecei a aprender Libras, há 18 anos atrás, as políticas eram incipientes, localizando a experiência surda em uma narrativa estritamente patológica. Na época não conseguia vislumbrar os avanços que temos hoje. Hoje, é visível o salto que tivemos quantitativa e qualitativamente. Porém, temos que estar atentos/as, pois, em se tratando de uma minoria, os retrocessos e suspensões de direitos são sempre iminentes. Cabe salientar o lobby para retardar a obrigatoriedade de tradução em Libras nas produções audiovisuais registradas na Ancine desde 2015, ou até mesmo a tentativa (frustrada, ainda bem) de destituir o direito das escolas bilíngues para surdos, tornado-as inconstitucionais, como ocorreu recentemente nas discussões sobre a PL 4.909/2020 e sua inserção na LDB.

Se buscamos um projeto político emancipatório e se reconhecemos narrativas que versam sobre a diversidade e a pluralidade, devemos tomar a ética da diferença e a ética inclusiva como basilar para esses projetos. Não podem ser aceitáveis produções artísticas que desconsiderem a Libras ou a audiodescrição. Precisamos questionar a “arte para todes” que ignora que pessoas surdas ou pessoas cegas sejam possíveis públicos. Precisamos questionar a falácia da inclusão que nos toma apenas como “contrapartida”. Se há uma subversão iminente na arte que se propõe contra projetos coloniais, queremos ser o “ponto de partida”, mas, para isso, precisamos tensionar, nos mostrar presentes e demandar sempre mais.

Que daqui a 10 anos possamos conquistar, no mínimo, uma cota de tela nas TVs de concessão pública com programação traduzida em Libras, cotas de exibição de filmes com Libras nas salas de cinemas e em plataformas de streaming. Somos maiores que ontem e seremos maiores que hoje, precisamos povoar o imaginário social e mostrar que o não acesso de uma parcela da sociedade é um projeto político estrutural que incide na vida de pessoas surdas em todos os espaços e a todo momento. É necropolítico quando se matam subjetividades, abafam potências, colonizam-se mentes em detrimento de um padrão ouvinte de existir. Temos que falar sobre isso, para, no futuro, deixar virar metáfora a linguagem morta da “barreira” e da “inacessibilidade” dos tempos modernos (?).

  1. Você tem um grande acesso e influência sobre o campo de acessibilidade para pessoas surdas e a janela de Libras por meio da internet, em especial do Youtube e redes sociais. Você tem dado cursos regularmente também pela internet? Qual o fluxo e quais as principais dificuldades e demandas do público?

Nesse período pandêmico, tive a oportunidade de ministrar alguns cursos remotamente, e percebi a ansiedade de profissionais que veem um mercado que se alarga mas que não os compreende, assim como cursos de formação de tradutores e intérpretes de Libras que não abarcam as especificidades da tradução audiovisual em língua de sinais – TALS.

Infelizmente, muitos estão aprendendo enquanto produzem, sem terem experiência ou conhecimento dos processos que envolvem uma tradução audiovisual. Muitos acreditam que a “janela de Libras” é apenas uma tradução inserida no vídeo, sem levar em consideração as diferentes etapas, linguagens e camadas presentes num material audiovisual. Reconhecer que não se trata apenas da tradução da linguagem verbal, mas também de um diálogo tradutório com a linguagem não verbal é uma das primeiras discussões que percebo como essencial com grupos que trabalhei.

A verbovisualidade no audiovisual é uma linguagem mestra, que não se separa, mas se formula em relação. Os sentidos são imbricados entre o que é verbal e o que é visual. Além disso, outro aspecto que me chama atenção nessa experiência de formação são as dúvidas técnicas desses profissionais, quanto ao uso da câmera, enquadramento, iluminação, edição e entrega de traduções em vídeo. Isso demanda a meu ver uma ampliação da discussão não apenas com a categoria de intérpretes sobre essas etapas, mas também com as contratantes e produtoras que tendem a desconsiderar a complexidade da tradução audiovisual em Libras e todos os recursos técnicos empregados para tal.

  1. Como você percebe a atuação dos surdos tanto como consultores, mas também no papel de tradutores intérpretes de Libras? Que elementos podem emergir nessas mudanças? O que é preciso, nesse caso, para a função do surdo como consultor?

Intérpretes e tradutoras/es surdas/os geralmente possuem maior domínio linguístico-cultural na língua de chegada, o que não desconsidera a presença de profissionais ouvintes que dominam de forma mais sólida os textos de partida em português que, em materiais audiovisuais, são na sua maioria direção português-libras. O trabalho em equipe é primordial, afinal se entendemos que o cinema é uma arte coletiva, porque a tradução cinematográfica seria uma atividade individual? Aí que entra o olhar surdo na consultoria ou mesmo na performance tradutória, ressaltando elementos da visualidade da língua de sinais, contribuindo com soluções tradutórias mais aproximadas da perspectiva surda e contribuindo diretamente com a representatividade surda em espaços de visibilidade.

Porém, vale ressaltar que o mercado audiovisual ainda não assimilou a presença de profissionais surdos/as, uma vez que os orçamentos são geralmente destinados para quiçá pagar um/a profissional tradutor de Libras ouvinte. Ocorre que, em muitas situações, a inserção de tradutoras/es surdas nesses espaços são forjados pela agência de tradutoras/es intérpretes ouvintes, que imbuídos de uma característica de aliados e reconhecendo a importância de profissionais surdos no processo, os trazem para o cenário mesmo sem as devidas condições orçamentárias e de tempo para suas traduções.

Na minha experiência com tradutoras/es intérpretes surdas/os, sempre foi notória a qualidade final das traduções, assim como as etapas tornam-se linguisticamente mais ricas e mais bem formuladas, além da segurança maior em ter um olhar biocultural de um/a tradutor/a pertencente ao público-alvo daquela tradução. Pessoas surdas gostam de ver suas línguas representadas por outras pessoas surdas, veem nessa ação uma identificação, o que contribui para a própria formação de público no audiovisual. Importante ressaltar que a soma com profissionais surdas/os não exclui de forma alguma o trabalho de tradutoras/es intérpretes ouvintes, mas se complementa e se atravessa na medida que as duas culturas em contato podem produzir maiores discussões acerca das escolhas tradutórias e estéticas.

Quanto à função de surdas/os consultoras/es, o envolvimento com os estudos da tradução e o conhecimento das línguas em questão é primordial. Ninguém nasce tradutor/a, mas aprende a ser. Porém, habilidades linguísticas, mesmo sem formação, devem ser consideradas, uma vez que ainda temos poucos espaços de formação para tradutoras/es surdas/os, o que nos demanda uma postura mais branda e de construção conjunta desse lugar almejado. Já trabalhei com pessoas surdas que não necessariamente tinham experiências tradutórias, mas, enquanto pessoas bilíngues e sinalizantes exímios, contribuíram e performatizaram traduções tão competentes quanto profissionais mais acadêmicos ou certificados.

Devemos estimular a formação de intérpretes e tradutores/as surdos/as, mas, na falta, é necessário engajar, aprender também no processo e compartilhar conhecimentos, afinal a tradução é algo presente nas experiências surdas bilíngues, e essas têm muito a nos dizer. Um olhar surdo revela aspectos que passam despercebidos pela nossa experiência enquanto tradutores/as ouvintes lapidando e “ensurdecendo” o processo tradutório.

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